quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Na Idade Completa de Cristo


               Na  Idade Completa de Cristo


   Desejo pensar que penso sempre, no que se nos intui ao coração sob o influxo do Espírito Santo; na graça e na fé que nos salvou (Ef 2,8) em Jesus Cristo, nosso único Senhor (Fl 2,11).
   Na verdade, somos santificados pelo Espírito Santo, através dos Dons (Is 11,2) e dos carismas; isto é, serviços (I Cor 12,8-10).
   A santificação de nossa alma realiza-se, intrinsecamente, no íntimo mais íntimo e profundo, o núcleo central da vida; isto é, nossos corações, onde se opera, sob o ascese devocional da fé, da esperança e da caridade, o Reino de justiça, de paz e alegria do Espírito Santo; o templo santo onde habita Deus.

   “Consequentemente, já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. É nele que todo edifício, harmonicamente disposto, se levanta até formar um templo santo no Senhor. É nele que também vós outros entrais conjuntamente, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna a habitação de Deus” (Ef 2,19-22).

   “Vós sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus”. O senhor Jesus Cristo nos tirou da morte do pecado e, pelo Espírito de vida, transportou-nos ao Reino de justiça, de misericórdia e fidelidade no Espírito Santo, concedendo-nos a cidadania dos santos, inserindo-nos ao seio da misericórdia do seu amor, como membros da unidade divina.

   Que nos ensina o apóstolo Paulo: “De agora em diante, pois, já não há nenhuma condenação para aqueles que estão em Jesus Cristo. A lei do Espírito de vida me libertou, em Jesus Cristo, da lei do pecado e da morte”. (Rm 8,1-2).

   Que lei é esta? A lei mosaica, que revelou ao homem a dimensão do pecado, que o pode conduzir à morte eterna.

   Estes são os que, pela aquiescência à graça de Deus e as moções infinitas do Espírito Santo, estão inseridos na estatura de homem feito, segundo a maturidade da idade completa de Cristo. (Ef 4,13).

   Ora, entre outros conceitos, tenho desejado, ardentemente, inserir numa página, o que trago, por longo tempo, guardado no secreto do meu coração!... Trinta e três anos é a maturidade da idade perfeita de Cristo... Então, na ressurreição dos mortos, os que forem arrebatados aos céus terão a mesma maturidade da idade do Senhor Jesus; o que significa dizer que, no céu, todos terão a mesma idade; pois, desde o batismo na Igreja, todos foram revestidos de Cristo e, por isso, será cristo de Cristo, com a idade divina e eterna, de trinta três anos, a perfeição da Trindade Santíssima; três vezes santa!...

   “Todos vós que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Já não há judeu ou grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois, todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3,27-28).

   “Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4,23-24).

   “Procurai a paz com todos e ao mesmo tempo a santidade, sem a qual ninguém pode ver o Senhor” (Hb 12,14)

“   Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus!” (Mt 5,8).


João C. Porto

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Renovação da Alma


Renovação da Alma


   Quem já imaginou... Alguém que fosse riquíssimo, que não conhecesse nem visse a sua riqueza e que, por isso, seja tão pobre e andasse com trajes de mendigo, batendo de porta em porta, pedindo alguma coisa para comer e teto para repousar? Vemos nessa situação todos os que não buscam o Senhor Deus de Abraão, de Isaac e Jacó; o Deus de Israel, Senhor Javé.

   Todas estas, semelhantes, pessoas, ainda que tenha, na imaginação, uma ideia da incomensurável herança eterna que lhes está reservada nos céus, infelizmente, não a levam em consideração, visto que vivem  no mundo e não em Deus. Tais pessoas, embora, diante de tanta fartura, morrem de inanição, porque não conhecem onde estão os celeiros do pão místico do banque divino, o pão vivo que desceu do céu para a salvação do mundo, nem, tampouco, o caminho que os pode levar às fontes das águas da vida; trazem no coração, pelo batismo na Igreja do Senhor Jesus  Cristo (Mt 16,18-19), o diamante, a pérola preciosa (Mt 13,45-46), o espelho sem mácula da Majestade Divina, o esplendor da glória eterna no céu. ´´E, ainda, como nos fala o Senhor Jesus Cristo, a respeito do homem que passava no campo e descobriu um grande tesouro: escondeu-o e, vendendo tudo o que possuía, comprou o campo, para que o tesouro lhe pertencesse.

   "Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mt 16,24).

   Ora, aqui na terra, no campo de nossos corações, podemos, através de nossas faculdades espirituais, sob a luz dos Dons do Espírito Santo e suas divinas moções, viver dos carismas, da fé que opera pela caridade, das perfeições do seu amor e, se me permitem dizer, sob o esplendor da visão beatífica, que só a teremos no céu, pela qual veremos a Deus face a face, encontraremos, no interior, o autor da vida, o Senhor Jesus Cristo, a pérola preciosa  no céu e na terra.

   Será que não têm ouvidos para escutar nem olhos para ver? O que impede ao homem ou à mulher de encontrar em si mesmo, a imagem viva e perfeita do Criador?

   O que nos diz o sofrido Jó? “Meus ouvidos tinham escutado falar de ti, mas agora meus olhos te viram. É por isso que me retrato, e arrependo-me no pó e na cinza” (Jó 42,5-6).

   Entretanto, ainda que tenham – e/ou tenhamos – a   ideia do mundo vindouro, não pedem – e/ou pedimos – ao Senhor da vinha, uvas para comer, não as buscam e, nem se quer batem – e/ou batemos – à  porta estreita, a fim de que possam entrar no caminho da vida. (Mt 7,13).

   "Se ouvirdes a minha voz e abrires a porta, entrarei em sua casa e cearemos juntos, eu com ele e ele comigo" (Ap 3,20).

   - Quem somos nós? Criaturas de Deus; filhos e filhas do Pai eterno, seres inteligentes, obra do Criador, para povoar o mundo, cultivar a terra e encontra-lo, ainda que às apalpadelas, já que Deus, além de nos “amar com amor eterno e constante”, “não está longe de cada um de nós”.

   “Ele fez nascer de um só homem todo o gênero humano, para que habitasse sobre toda a face da terra. Fixou aos povos a ordem dos tempos e os limites de sua habitação. Tudo isso para que procurem a Deus e se esforcem por encontra-lo como que às apalpadelas, pois na verdade ele não está longe de cada um de nós. Porque é nele que temos a vida, o movimento e o ser, como até alguns dos vossos poetas disseram: Nós somos também de sua raça...” (AT 17,26-26).

   Necessitamos de renovação da alma, a fim de estarmos na paz e na santidade do Senhor Jesus Cristo. (Hb 12,14).

   "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus" (Mt 5,8).

   Nestes dias em que vivemos, muito parecidos com os últimos dias do final dos tempos, devemos buscar o Senhor, nosso Deus, de todo o espírito, de toda alma e de todo o nosso ser; o que significa dizer: de todo o coração!... Não há desculpa:

   “Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores, mas põe o seu prazer na lei do Senhor, e nela medita dia e noite” (Sl 1,1-2).

   O que Deus nos fala através do profeta Jeremias?

   “Bem conheça os desígnios que mantenho para convosco – oráculo do Senhor –, desígnios de prosperidade e não de calamidade, de vos garantir um futuro e uma esperança. Vós me invocareis e vireis suplicar-me, e eu vos atenderei. Vós me procurareis e me haveis de encontrar, porque de todo o coração me fostes buscar”. (Jr 29,11-13).

   “Invoca-me, e eu te atenderei, revelando-te grandes coisas misteriosas que ignoras” (Jr 33,3).

    “Deus contemplou a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31).

   Ora, o que é boníssimo, aos olhos do Criador, é bem-acabado e perfeito em seu amor.
Deus criou o céu e a terra e tudo quanto neles há. No céu e na terra, criou os seres inteligentes:

   - No céu, Deus criou os seus anjos!

   “Não são todos os anjos espíritos ao serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação?” (Hb 1,14).

- Na terra, Deus criou o homem e a mulher! “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. (Gn 1,26ª).

   “Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher”. (Gn 1,27).

   “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2,7).

   “Ora, Deus criou o homem para a imortalidade, e o fez à imagem de sua própria natureza” (Eclo 2,23).

   Assim, a imagem de Deus, que está em nosso corpo, é viva, perfeita e eterna. Não consigo pensar diferente!...

   Que tal descermos ao íntimo do coração sob a luz da graça e encontrarmos o tesouro de justiça, de paz e alegria no Espírito Santo? Não dá mais para vivermos na miséria deste mundo, sem tomarmos conhecimento do quanto somos ricos em Deus!

“O vencedor herdará tudo isso; e eu serei o seu Deus, e ele será meu filho” (Ap 21,7)

“Ao vencedor concederei assentar-se comigo no meu trono, assim como eu venci e me assentei com meu Pai no seu trono” (Ap 3,21).

João C. Porto

terça-feira, 30 de julho de 2013

Plenitude Amorosa

                                      Plenitude 

   “Todos nós participamos de sua plenitude, e dele recebemos graça sobre graça” (Jo 1,16).
   A fé, revestida da caridade do Amor, opera tudo em todos, segundo Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Ainda que nossa fé seja como um grão de mostarda neste mundo, fundamenta, desde a viva esperança, todos os Dons, carismas, virtudes e frutos do Espírito Santo, e pela visão profunda que neste mundo nos é concedida, no mundo vindouro, será em cada um dos filhos e filhas de Deus, a visão beatífica através da qual veremos a Deus, face a face. 
   Ora, o amor de Deus – Espírito Santo –, que nos corresponde à presença do Pai – Verdade Eterna – e  do Filho – Sabedoria e Fidelidade Supremas –, que nos trouxe aos corações a luz divina, no final dos tempos, devolverá ao ceio do Pai e do  Filho todos os que ressuscitarem em Cristo Jesus, os quais pela visão beatífica, que substitui nossa fé interior,  estarão face a face diante do Senhor e único Deus, nossa luz e salvação.
Abaixo, continuaremos sob a visão de amplitude do amor de Deus.

                                        Amor Incondicional

   O amor de Deus é gratuito e incondicional! É gratuito, porque Deus é amor (I Jo 4,8) e, por isso, ama incondicionalmente a todos, não porque somos bons; mas, porque sua bondade e misericórdia, para conosco, são infinitas.

   “Louvai ao Senhor todas as nações, louvai-o todos os povos, porque sem limites é a sua misericórdia para conosco, e eterna a fidelidade do Senhor” (Sl.116,1-2).
   O amor gratuito é o amor que nos é dado de graça, eternamente; visto que Deus nos criou por  amor e para o amor. Diz-nos a palavra de Deus: antes da eternidade, a terra nem existia e Deus já nos amava; antes da criação das coisas mais antigas. Na verdade, antes que fossem criados os abismos, já havíamos sido concebidos em seus desígnios de amor eternos, muito antes que as águas brotassem das fontes.

   O amor incondicional é próprio de Deus, que nos ama com amor eterno e constante (Jr 31,3); isto é, que nos ama independentemente de qualquer condição de nossa parte.           

   “Mesmo que as montanhas oscilassem e as colinas se abalassem, jamais meu amor te abandonará e  jamais meu pacto de paz vacilará, diz o Senhor que se compadeceu de ti” (Is 54,10).

   O amor de Deus é o próprio Espírito Santo, o qual, pelo batismo que recebemos na Igreja Una Santa, Católica e Apostólica, habita em nossos corações, juntamente, com a graça, seus respectivos dons e as virtudes da caridade, como vínculos da perfeição divina.

      “Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vinculo da perfeição“ (Cl 3,14).

      Assim o amor de Deus é:

                                           Amor Gratuito

   “Porque és precioso a meus olho, porque eu te aprecio e te amo, permuto reinos por ti, entrego nações em troca de ti” (Is 43,4).
   “Fica tranquilo, pois estou contigo, do oriente trarei tua raça, e do ocidente eu te reunirei. ‘Devolve-os!’ – direi ao setentrião e ao meio-dia -: Não os retenhas! Traze meus filhos das longínquas paragens e minhas filhas dos confins da terra”.

                                        Amor Incondicional

   “Eis o que diz o Senhor: no tempo da graça eu te atenderei, no dia da salvação eu te socorrerei, (Eu te formei e designei para fazer a aliança com os povos), para restaurar o país e distribuir as heranças devastadas, para dizer aos prisioneiros: “saí!”. (Is 49,8).
   “Pois ele diz: eu te ouvi no tempo favorável e te ajudei no dia da salvação (Is 49,8). Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação” (II Cor 6,2).

                                               Amor bondoso

   “Louvai o Senhor porque ele é bom; porque eterna é a sua misericórdia” (Sl 117,1).
   A bondade de Deus ultrapassa todo o entendimento e o seu amor bondoso dura para sempre e além da eternidade. (Vulgata: Ex 15,18),
Por isso, “a paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus” (Fl 4,7)

                                               Amor infinito

   De longe me aparecia o Senhor: “Amo-te com eterno amor; e por isso a ti estendi o meu favor”.

                                                 Amor filial

   Vou publicar o decreto do Senhor. Disse-me o Senhor: “Tu és meu filho, eu hoje te gerei”. Pede-me; te darei por herança todas as nações; tu possuirás os confins do mundo”. (Sl 2,7-8).

                                    Amor de fidelidade suprema

   Fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor (I Cor 1,9).

                                               Amor Ágape

   Eu repreendo e corrijo aqueles que amo. Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te.

 “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir à porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo. Ao vencedor concederei assentar-se comigo no meu trono, assim como eu venci e me assentei com meu Pai no seu trono” (Ap 3,19-20).

                                          Amor misericordioso

   O Senhor Jesus Cristo nos afirma que são três os fundamentais preceitos da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade, “Eis o que é preciso praticar em primeiro lugar, sem, contudo, deixar o restante” (Mt 23,23b). 
   “Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias, Deus de toda a consolação. Que nos conforta em todas as nossas tribulações, para que, pelas consolações com que nós mesmos somos consolados por Deus, possamos consolar os que estão em qualquer angústia!” (II Cor 1,3-4).

Ora, são Paulo nos diz:

   “O Reino de Deus não é comida nem bebida, mas Justiça, Paz e Alegria no Espírito Santo” (Rm 14,17).
“O Reino de Deus não consiste em palavras, mas em atos” (I Cor 4,20).

   Qual a ordem que o Senhor Jesus Cristo deu aos seus apóstolos?: “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados; dai, e dar-se-vos-á. Colocar-vos-ão no regaço medida boa, cheia, recalcada e transbordante, porque, com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos vós também” (Lc 6,36-38).

   A misericórdia é o amor de compaixão, que resgata a miséria dos corações; pois, o Senhor Jesus Cristo nos ensina, dizendo: “Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7).

     João C. Porto




quinta-feira, 25 de julho de 2013

Amor Gratuito

Amor Gratuito

   Porque és precioso aos meus olhos, porque eu te aprecio e te amo, permuto reinos por ti, entrego nações em troca de ti (Is 43,4).
“O amor de Deus, que torna o ser humano precioso e apreciado”. (Comentário da Bíblia do peregrino – Pg. 1784).

                                            Concordâncias

Jo 3,16:- Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.
I Cor 6,20:- Porque fostes comprados por um grande preço. Trazei e glorificai, pois, a Deus no vosso corpo.
I Cor 7,23:- Por alto preço fostes comprados, não vos torneis escravos de homens.
I Pe 1,18:- Porque vós sabeis que não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro que tendes sido resgatados da vossa vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais, mas pelo precioso sangue de Cristo,

   Na página doze (12) do livro “A Prática do Amor a Jesus Cristo”, de santo Afonso de Ligório, encontra-se esta declaração do amor de Deus para conosco, amor gratuito e incondicional: “Olhe, fui eu o primeiro a amar você. Você não estava ainda no mundo. O mundo nem existia, e eu já o amava. Eu amo você desde que sou Deus. Amo você, e desde que amei a mim mesmo, amei também você!”
   O que o Senhor, nosso único Deus, nos diz no livro do profeta Isaías sobre o seu amor gratuito e incondicional para conosco?
“Eis o que diz o Senhor que te criou, ó Jacó, e que te formou ó Israel: Não temas, porque eu te remi, e te chamei pelo teu nome, tu és meu”. (Is 43,1- Vulgata). “Porque todos aqueles que invocam o meu nome, eu os criei, os formei e os fiz para minha glória” (Is 43,7 – Vulgata).
Vejamos como o amor gratuito de Deus é eterno e constente no coração daquele e/ou daquela que o invoca sob o influxo amoroso do Espírito Santo: (Jl 3,5; Rm 10,13). Na verdade Deus nos ama com amor constante e eterno. (Jr 31,3 – Vulgata).
   Encerramos esta pequena página com a grande prova do amor gratuito de Deus para com seus filhos e filhas amados: “Mas eis aqui uma prova brilhante do amor Deus para nós: quando éramos pecadores, Cristo morreu por nós. Portanto, muito mais agora, que estamos justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira” (Rm 5,8-9).


João C. Porto

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Espírito Santo - Dom da Sabedoria


Dom da Sabedoria

   Nos capítulos anteriores mostrei o admirável paralelismo que existe entre a ordem natural e a sobrenatural. Na primeira bagagem intelectual do nosso espírito não é formada de conhecimentos isolados, mas o espírito realiza ali uma coordenação de conhecimentos, forma com eles um sistema, imprime-lhes unidade; cada ciência coordena os conhecimentos que lhe pertencem e os estuda em suas causas e em seus princípios. E nosso espírito pretende ainda fazer uma coordenação superior, a coordenação da sabedoria, unificando e coordenando nas coisas mais altas e profundas todo o campo vastíssimo dos conhecimentos humanos,
   Com maior razão são necessárias estas coordenações na ordem sobrenatural; não seria suficiente penetrar, uma por uma, as verdades pelo Dom do Entendimento, como o expliquei, para ter a perfeição do conhecimento sobrenatural; é preciso perceber os vínculos que unem entre si as criaturas, e as criaturas com Deus, é indispensável que todos os conhecimentos sobrenaturais que possuímos formem também uma coordenação, um sistema e se unifiquem.
   O Dom da Ciência estabelece certa coordenação; mas a coordenação suprema, a que abarca, por assim dizer, numa unidade perfeita todos os conhecimentos sobrenaturais, é o Dom da Sabedoria.
   Assemelha-se ao conceito de sabedoria que temos na ordem natural; nesta ordem, a sabedoria é a coordenação de todos os nossos conhecimentos pelas causas altíssimas das coisas. E na ordem sobrenatural dos Dons, o Dom da Sabedoria abarca todos os conhecimentos sobrenaturais e os coordena na causa suprema, no princípio altíssimo, em Deus.
   Este Dom que vou mostrar agora é o mais alto de todos os Dons, tem uma riqueza incalculável, porque são Paulo assegura que o homem espiritual julga todas as coisas e, como muito bem explica o apóstolo nesta passagem da primeira Carta aos coríntios, as julga porque recebeu o Espírito Santo, que perscruta até as profundezas de Deus. “O Espírito perscruta todas as coisas, até as profundezas de Deus” (I Cor 2,10). Nós recebemos este Espírito e por isso, diz, não falamos com as palavras da sabedoria humana, mas com a doutrina do Espírito Santo que recebemos em nós.
   O Dom da Sabedoria abarca tudo, mas nesses vastos conhecimentos que a alma pode alcançar pelo Dom da Sabedoria há uma unidade perfeita, porque consiste tudo a partir da excelsa atalaia, olha tudo a partir da causa suprema de Deus.
   Para compreender, na medida do possível, este Dom, devo recordar uma doutrina que já expus muitas vezes nesta série de capítulos acerca dos Dons do Espírito Santo. Expliquei como pelos Dons conhecemos por certa conaturalidade com as coisas que são objeto dos nossos conhecimentos e por uma experiência íntima que temos das coisas divinas. Embora o tenha repetido várias vezes, quero dizê-lo mais uma vez; porque, de um lado, é difícil encontrar esta ideia e, de outro, é fundamental para o conhecimento do Dom da Sabedoria.
   O conhecimento que temos pelos Dons do Espírito Santo é um conhecimento que nasce de uma experiência íntima, de uma conaturalidade e proporção que chegamos a ter com as coisas que conhecemos, em virtude de estarmos unidos com Deus pela virtude da caridade.
   Já disse, em algum dos capítulos anteriores, como até mesmo na ordem natural o amor é uma fonte de conhecimentos: compreendemos muito bem o que amamos.
   O artista que ama uma beleza em qualquer ordem, com que facilidade compreende todas as coisas relacionadas com ela; há conaturalidade, há proporção entre a beleza que a arte realiza e a maneira de ser dele, visto que seu espírito está inclinado justamente a conhecer as coisas belas.
   E o arqueólogo que ama as antiguidades e descobre por toda parte os vestígios do passado, tem o sentido do antigo; o amor que possui para com este gênero de conhecimentos faz com que compreenda melhor todas as coisas relacionadas com este ramo.
   E quando uma pessoa ama outra e a trata com intimidade, com que facilidade compreende os sentimentos íntimos da pessoa amada, como parece adivinhar seus sentimentos; não é a mesma coisa que conhecer uma pessoa por referências e conhece-la pelo trato íntimo, e quanto mais íntimo é o trato, mais perfeitamente se conhece.
   Não é verdade que os que se amam estão, de certa forma, um no outro? O próprio Jesus nos diz com relação ao seu amor: “Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue, permanece em mim e eu nele”. E na verdade, quem ama, está no objeto amado, projeta seu coração, sua inteligência e seu ser naquele que ele ama, e traz no íntimo de sua alma, no mais profundo das suas entranhas, o ser amado, são Paulo atreveu-se a dizer aos fiéis: “Trago-os no íntimo do meu coração”.
   Mas não é simplesmente esta virtude que o amor tem de fazer-nos compreender o que amamos e de aplicar todas as nossas faculdades para chegar ao conhecimento mais profundo do ser amado o que basta para explicar esta experiência íntima que temos das coisas divinas pelos Dons do Espírito Santo. Existe algo ainda mais perfeito; por nós, pela caridade, estamos intimamente unidos a Deus. Por mais que nos esforcemos não chegaremos a compreender até que ponto é estreita, até que ponto é íntima, nossa união com Deus.
   Jesus se esforçou, particularmente na noite da Ceia, para explicar-nos esta união que temos com ele: “Eu sou a videira, vós sois os ramos; os ramos não podem produzir fruto se não estão unidos à videira, assim vós, sem mim nada podeis fazer”.
   E como se aquela comparação não fosse suficiente, como não o é, para exprimir a união estreitíssima que existe entre ele e nós, chegou a comparar a união que tem conosco com a união inefável que têm entre si as três pessoas Divinas da Trindade: “Pai – disse na oração sacerdotal, na noite da Paixão –, que todos sejam uma só coisa como tu e eu somos uma só coisa. Tu em mim, e eu neles, para que todos sejam consumados na unidade”.
   Não há união comparável a que temos com Deus pela caridade; consideremos, uma a uma, todas as uniões da terra, são superficiais, são limitadas, não têm a profundidade íntima que tem a união que temos com Deus pela caridade.
   O apóstolo são Paulo se atreve a dizer: “Aquele que adere a Deus, é um só espírito com ele” (I Cor 6,17).
   E visto que estamos tão unidos e que esta união é mais íntima do que qualquer outra sobre a terra, é natural que esta união com Deus nos faça penetrar como por doce experiência, por uma experiência íntima, as coisas divinas.
   Permita-se-me ainda uma comparação muito grosseira, mas que sem dúvida será útil para compreender o que exprime. Quando temos em nossa boca uma fruta, apreciamos seu sabor muito melhor do que se lêssemos as descrições que se encontram nos tratados de Botânica: Que descrição poderia ser comparável ao gosto que experimentamos quando provamos uma fruta? Assim, quando estamos unidos a Deus e temos dele uma experiência íntima, isso nos faz conhecer muito melhor as coisas divinas do que todas as descrições que os eruditos possam fazer e do que todos os livros dos homens mais sábios.
   O conhecimento dos Dons é um conhecimento que se adquire por conaturalidade e por experiência íntima, em virtude da união estreitíssima que temos com Deus.
   Mas se é certo que isso se verifica em todos os Dons, de maneira especial se verifica no Dom da Sabedoria; é próprio deste Dom fazer-nos conhecer a Deus e as coisas divinas por uma íntima e doce experiência de amor. Por isso diz são Dionísio falando de Hieroteu: “Hieroteu é perfeito nas coisas divinas, porque não só as aprende, mas as experimenta”.
   Experimentar as coisas divinas, saboreá-las no íntimo do nosso coração é por este gosto e experiência julgar de todas as coisas, tal é o que realiza em nossas almas o Dom da Sabedoria.
   Mas quero explicar por que esta doutrina da conaturalidade e da experiência se aplica, de maneira singular, ao Dom da Sabedoria.
   Pela caridade – essa virtude rainha, essa virtude suprema, que é a forma de todas as virtudes, o Dom mais precioso que recebemos de Deus depois da graça –, pela caridade nos unimos a Deus e esta união tem muitos aspectos: unimo-nos a Deus como ao motor e ao diretor das nossas almas, como ao único fim das nossas ações, como ao objeto que experimentamos e que saboreamos; mas daqui resultam diversas maneiras de perceber a Deus.
   No capítulo anterior expliquei como o Dom do Entendimento orienta para Deus como o fim último do homem; penetra nas verdades sobrenaturais pela adequada avaliação do fim. Cada Dom tem sua maneira própria de tocar a Deus.
   Mas, sabemos como o Dom da Sabedoria toca a Deus? Toca-o como a Bondade infinita, saboreada e experimentada. Há uma analogia notável entre o objeto da caridade e o objeto do Dom da Sabedoria; o objeto da caridade é Deus em si mesmo, em sua bondade; o objeto do Dom da Sabedoria é essa mesma bondade, mas enquanto experimentada, saboreada.
   Por isso, este Dom da Sabedoria tem uma relação estreitíssima com a caridade, é um Dom que brota da caridade e que conduz à caridade. Brota da caridade, porque o que possui o Dom da Sabedoria conhece porque ama; e se for permitido empregar a frase de um místico – já sabemos que a linguagem dos místicos é audaz, mas é brilhante e expressiva –, direi que pelo Dom da Sabedoria, “vemos pelos olhos do amado”, pelos olhos de Deus.
   A expressão é audaz, mas exprime a realidade. Se pudéssemos entrar dentro de Deus e olhar pelos seu olhos, que veríamos? Veríamos as coisas à maneira divina; assim são vistas as coisas pelo Dom da Sabedoria, são vistas em Deus, são vistas a partir dessa atalaia excelsa.
   Mas podemos penetrar em Deus, ver por seus olhos e olhar por sua mente, porque a caridade nos uniu estreitamente com ele, porque aderimos a ele e formamos com ele um só espírito. (I Cor 6,17).

   O Dom da Sabedoria que brota da caridade também conduz a ela; a luz deste Dom não é fria e inerte, como costuma ser a luz da sabedoria humana, mas é ardente e vital, como o raio de sol, que em sua essência sutil funde a luz, o calor e a energia. A luz do Dom da Sabedoria inflama de amor o coração e, desta forma, volta ao princípio do qual emanou e consuma o círculo divino.
   Poderia parecer estranho que o Dom da Sabedoria, que como todos os Dons intelectuais tem que fundasse na fé, supera seu próprio fundamento, porque os conhecimentos que podemos ter pelo Dom da Sabedoria, embora estejam dentro do campo da fé, excedem de maneira incrível o conhecimento da fé. Como é possível que a Sabedoria supere o seu próprio fundamento?
   Se penetrássemos na natureza da inteligência e da vontade, poderíamos encontrar o segredo dessa aparente anomalia. Ensina santo Tomás de Aquino que é melhor conhecer do que amar as coisas inferiores a nós, mas é melhor amar as coisas que são superiores.
   Com relação a Deus, é melhor amá-lo do que conhecê-lo; porque o conhecimento faz com que as coisas venha a nós e se adaptem à nossa maneira de ser; mas o amor, que é a caridade, nos faz sair de nós mesmos e nos lança no objeto amado.
   Quem ama se assemelha à coisa amada; quem conhece, adapta a coisa conhecida à sua própria maneira de ser. De sorte que quando se trata de coisas inferiores as elevamos quando as conhecemos, porque lhes damos o nosso próprio modo de ser; mas quando amamos as coisas inferiores, nos diminuímos. Ao contrário, quando conhecemos as coisas superiores, diminuímo-las, de certa forma, para que se adaptem à nossa inteligência; mas quando as amamos, elevamo-nos até elas.
   Por isso, nesta vida, é melhor amar a Deus do que conhecê-lo, e por isso é mais perfeito o amor a Deus pela caridade do que o conhecimento pela fé. Neste mundo, o conhecimento sempre tem deficiências; o amor, ao contrário, que é um presente do Espírito Santo, uma imagem sua, tem maior perfeição mesmo neste mundo.
   A caridade na terra não difere da caridade no céu, é essencialmente a mesma, ao passo que a fé se detém nos umbrais da eternidade para que a visão venha substituí-la. Por isso não é raro que a caridade supere o seu fundamento e que por meio dela tenhamos um conhecimento mais amplo, mais profundo e, se se pode dizer, mais divino, do que a fé.
   Na verdade, o campo do Dom da Sabedoria é vasto, vastíssimo; inclui todas as coisas que a fé abarca as coisas divinas e as coisas humanas que caem sob a fé, que foram reveladas, a sabedoria inclui tudo. Já citei a palavra do apóstolo são Paulo: “O Espírito perscruta tudo”. O homem espiritual julga todas as coisas, nada escapa de sua perspicácia e de sua sabedoria sobrenatural.
   Mas seu objeto próprio, seu objeto primário, é Deus; os olhos da sabedoria mergulham na divindade pela contemplação. E porque contemplam o divino, permita-se-me que repita a mesma expressão, veem pelos olhos do Amado, e daquela excelsa atalaia descobrem todas as coisas que devemos conhecer na ordem sobrenatural.
   Este Dom da Sabedoria é o mais alto de todos os Dons e dirigem a todos; é um Dom altíssimo. O Dom do Entendimento é dirigido pela sabedoria, e por isso forma o primeiro par na enumeração de Isaías de que falei num dos primeiros capítulos. Diz o profeta que da raiz de Jessé sairá um ramo e desse ramo nascerá uma flor, e sobre essa flor descansará o Espírito de Deus, o Espirito da Sabedoria e do Entendimento, o Espírito do Conselho e da Fortaleza, o Espírito da Ciência e da Piedade, e o encherá o Espírito do Temor de Deus,
   No primeiro dos pares enunciado por Isaías estão a Sabedoria e o Entendimento, porque a Sabedoria é um Dom diretor até mesmo do Dom do Entendimento, é o Dom supremo que exerce seu influxo sobre todos os Dons, repito; é como que o cume onde pode chegar o conhecimento humano.
   Este Dom da Sabedoria tem uma importância capital na contemplação sobrenatural. O Dom do Entendimento certamente influi na contemplação, porque purifica a alma para que possa contemplar as coisas divinas e penetrar na verdade da fé, e por essas duas operações preparo o terreno, por assim dizer, para o Dom da Sabedoria.
   O Dom da Sabedoria é o Dom supremo da contemplação; por ele nossa alma se eleva ao ponto mais alto que se possa subir; mais o que o Dom da Sabedoria, somente o céu, a visão beatífica.
   Ensina-nos os teólogos que pelo Dom da Sabedoria se chega a contemplação mais perfeita de Deus e que este Dom é a característica das altas etapas da vida espiritual; é, poderíamos dizer, o Dom dos santos; não porque somente eles o tenham; graças a Deus, repito, desde o dia do nosso batismo possuímos todos os Dons; mas embora possuamos todos os Dons, nem sempre eles alcançam seu perfeito desenvolvimento, por nossa culpa, ou ao menos, por nosso descuido.
   Todos os homens temos as mesmas faculdades, e acaso não vemos muitos ignorantes que jamais cultivaram suas faculdades intelectuais? Desenvolveram seus músculos, têm uma força material poderosa; mas descuidaram o desenvolvimento da inteligência. Assim existem muitas almas que descuidam o desenvolvimento destes Dons magníficos que receberam da mão munificente e santificadora de Deus.
   Os santos, os que chegaram ao cume da perfeição, possuem de maneira perfeita todos os Dons, mas de modo particular o Dom da Sabedoria.
   E esse Dom produz em nós a semelhança, por assim dizer, mais perfeita com Jesus Cristo. Não nos lembramos daquela frase misteriosa de são Paulo: “Nós todos que, com o rosto descoberto, refletimos como num espelho a glória do Senhor, somos transformados nessa mesma imagem, cada vez mais fúlgida” (II Cor 3,18).
   Essa sucessão de luz, essa série de claridade, pelas quais a alma vai se transformando em Jesus Cristo, é o processo do Dom da Sabedoria. Quando este alcança na alma seu perfeito desenvolvimento, então a alma tem a imagem de Jesus, essa imagem é a sabedoria criada, reflexo da Sabedoria infinita, como a caridade é o reflexo do Espírito Santo.
   Por isso a sétima bem-aventurança é fruto do Dom da Sabedoria: “Bem-aventurados os pacíficos porque eles são filhos de Deus”. Esta paz é produzida pelo Dom da Sabedoria; este Dom produz aquela paz de que fala o apóstolo Paulo: “A paz de Deus, que supera todo o conceito” (Fl 4,7). Uma paz que supera tudo o que nós podemos ´perceber pelos nossos sentidos, uma paz que está acima de toda a paz humana.
   Este olhar divino com que se contempla o mundo vem produzir em nossa alma uma paz profunda, uma paz imperturbável.
   As almas que possuem de maneira perfeita o Dom da Sabedoria são os pacíficos, e eles são os filhos de Deus, têm a adoção perfeita, a filiação consumada, porque a sabedoria gravou em suas almas a imagem mais perfeita que se pode ter sobre a terra do Filho de Deus.
   É claro que neste Dom, como todos os demais, existem graus. O primeiro grau do Dom da Sabedoria – que se possui a partir do momento em que se tem o Dom – faz-nos aderir a Deus, e por aderirmos a ele temos um juízo reto, uma retidão sobrenatural para julgar das coisas divinas e, ao mesmo tempo, por esse primeiro grau dispomos de normas divinas para regular nossas ações e operações.
   No segundo grau chegamos a ter o gosto, um sabor especial pelas coisas divinas. Não nos lembramos daquelas palavras de são Paulo que a Santa Igreja nos repete durante o tempo Pascal: “Uma vez, pois, que ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas lá de cima, onde Cristo está assentado à direita de Deus” (Cl 3,1-2).
   Saboreai o que é de cima! Saborear as coisas divinas é próprio do Dom da Sabedoria. Poderíamos empregar esta expressão por analogia com os sabores materiais. O Dom da Sabedoria nos dá um sabor, um gosto pelas coisas divinas.
   E pela suavidade e pelo gosto que experimentamos nas coisas divinas chegamos a desprezar as satisfações humanas. Vemos isto nos santos. Santa Teresa do Menino Jesus não pediu a Deus que lhe pusesse uma gota de amargura em todas as satisfações da terra? Parece incrível que se faça semelhante pedido; geralmente desejamos exatamente o contrário; que Deus ponha em tudo uma gota de mel, que em todas as coisas da nossa vida, até em nossos sofrimentos, haja uma gota de doçura. Santa Teresa de Lisieux pedia a Deus que não lhe permitisse saborear nenhuma das satisfações humanas.
   É que depois de saborear as coisas divinas desprezam-se as coisas humanas; como esses paladares delicados que se acostumaram a manjares finos já não podem apreciar os alimentos comuns; assim não se pode apreciar as coisas da terra depois de experimentar o sabor íntimo das coisas divinas.
   Mas há também outro efeito muito próprio do Dom da Sabedoria: faz-nos conhecer os tesouros da dor e faz-nos sentir um desejo vivíssimo dela. Já disse que para conhecer e amar a dor temos o Dom da Ciência, mas é ainda mais profundo o conhecimento que se tem da dor pelo Dom da Sabedoria e mais vivo o desejo de sofrer.
   Todos os santos que quiseram sofrer e que estavam impacientes por sofrer o martírio fizeram-no sob o influxo do Dom da Sabedoria: Santo Inácio de Antioquia que disse: “Sou trigo de Cristo e é necessário que eu seja triturado pelos dentes das feras para converter-me em pão imaculado”; santa Teresa que dizia: “Ou sofrer ou morrer”; santa Maria Madalena de Pazzis que afirmava: “Não morrer, mas padecer”. Todos esses desejos parecem estranhos, parecem anormais, parecem loucuras, quando não se compreendem sua razão profunda.
   À luz do Dom da Sabedoria, é tão bela a Cruz! É tão doce a dor! Tem algo de divino, tem algo de Jesus, é a escada reta e luminosa por onde se sobe aos céus. Onde está a dor, está a cruz impregnada de amor, e das entranhas da dor brota a perfeita alegria que são Francisco de Assis nos ensinou maravilhosamente.
   Para entender essas coisas é necessário o Dom da Sabedoria. O homem animal não percebe as coisas divinas, diz são Paulo; o homem espiritual julga todas as coisas. Quando o Dom da Sabedoria se desenvolveu em nós, por meio dele o Espírito Santo nos faz penetrar nas riquezas da cruz, nas maravilhas da dor, e então a desejamos com todas as forças da nossa alma, com todos os anelos do nosso coração.
   Nos altos graus do Dom da Sabedoria, as almas já vivem uma vida celestial, parece que começam a saborear as delícias do Amado, já não querem olhar para nenhuma das coisas da terra, já veem todas as coisas em relação à Pátria. É o que dizia são Bernardo: “Quando escreves, teu relato não tem para mim nenhum sabor se ali não estiver o nome de Jesus. Uma conferência ou uma conversa não me agradam, se meus ouvidos não escutam o nome de Jesus. Jesus é mel para os lábios, melodia para os ouvidos, júbilo para o coração” (Homil., 15 in Cant.). Via tudo em relação a Deus, via tudo em relação ao céu.
   Essas almas começam a contemplar algo de Deus desde esta terra, olham todas as coisas com os olhos do amado, e contemplam o universo desde a excelsa atalaia da Divindade.
   Concluí a exposição que ofereci dos Dons do Espírito Santo. Não sei se acertei em dar alguma ideia, ainda que vaga, destas maravilhas de Deus; mas estou certo de que a exposição que fiz, se não encheu de luz o nosso espírito, pelo menos encheu de inquietação a nossa alma. Sentimos a inquietação daquele que pressente outro mundo melhor, a inquietação daquele que não consegue compreender as coisas, mas as vislumbram.
   Estou certo de que a exposição que fiz nestas páginas servirá para que compreendamos que há um mundo desconhecido, que há um mundo divino, cheio de riquezas e impregnado de doçura, que há um mundo mil vezes superior, mil vezes mais belo que este mundo prosaico em que vivemos, um mundo para o  qual fomos criados.
   Porque não fomos criados para este mundo miserável  nem para acumular as riquezas que o ladrão nos pode arrebatar e que a ferrugem consome, nem para embriagar-nos com as coisas da terra, nem para desfrutar dos prazeres terrenos, às vezes tão vis, sempre imperfeitos, incapazes de saciar o nosso coração imenso. Não, nascemos para um mundo superior. para um mundo oculto, para um mundo que trazemos escondido em nossa alma.
   Sentir-me-ei satisfeito se tiver levado alguém a pressentir esse mundo divino, se tiver deixado uma inquietação nos corações, se ao menos, depois de minha exposição pudermos dizer: existe algo maior do que aquilo que os nossos sentidos, existe um mundo superior, um mundo dos santos para o qual todos somos chamados. E trazemos dentro do coração realidades sobrenaturais com as quais podemos escalar os cumes e contemplar belíssimos panoramas, e assim aproximar-nos da luz de Deus.
   Que o Espírito Santo, cuja moção nos ensina todas as coisas, segundo a frase da Escritura, complete a exiguidade da nossa obra, que ele comunique às nossas almas a sua luz, para que olhemos para o alto e os nossos corações se encham com o fogo santo do amor, e suspiremos por aquilo que é grande, divino e eterno!

Do livro “Dons do Espírito Santo” da autoria de D. Luís M. Martinez -  Arcebispo Primaz do México – Apresentação: Pe. Haroldo J. Rahm. SJ. Edições Paulina 1976. 
Estas nove (9) páginas riquíssimas do Amor de Deus , que colocamos no blog “Poço de Jacó”:

- Noções Gerais – Dom do Temor de Deus – Dom de Fortaleza – Dom de Piedade – Dons Intelectuais – Dom do Conselho – Dom da Ciência – Dom do Entendimento – e Dom da Sabedoria.