quinta-feira, 13 de junho de 2013

Espírito Santo - Dom de Fortaleza


Dom de Fortaleza


   No capítulo anterior, procurei assinalar o campo da vida espiritual em que o Dom de Temor de Deus exerce as suas funções santíssimas. Para praticar o bem, encontramos em nós mesmos uma dificuldade enorme: a inclinação desordenada que tem ao mal, às coisas deste mundo, e a atração que as criaturas exercem sobre nós e que a Escritura chama “o fascínio da vaidade” (Sb 4,12).
   Para moderar os nossos afetos e para ordenar a nossa vida, temos necessidade de que o Espírito Santo nos una tão intimamente com Deus, que nenhum atrativo e nenhum fascínio terreno possa arrancar-nos dos braços amorosos do Senhor. Isto é realizado pelo Espírito Santo, como já procurei explica-lo, pelo Dom de Temor de Deus.
   Mas há também outro campo importantíssimo na vida espiritual, em que há necessidade do influxo eficaz e decisivo do Espírito Santo. Procurei, com a graça de Deus, explicar o que é este novo campo de ação.
   Sabemos muito bem que para a vida espiritual, como para qualquer outro empreendimento nobre e generoso, encontramos dificuldades e perigos. O sábio Salomão dizia: “Todas as coisas são difíceis” (Eclo 1,8), e nossa experiência nos ensina quão profunda é a frase do Sábio e como é próprio do humano encontrar dificuldades em tudo. E quanto mais elevados e generosos são nossos empreendimentos, tanto mais crescem e aumentam as dificuldades.
   Para alcançar a nossa felicidade eterna, quantos obstáculos temos que superar! Muitas vezes conhecemos nosso dever de maneira precisa e exata, sentimos o desejo de cumpri-lo e temos propósitos de caminhar pelas sendas que Deus nos indicou.
   Mas, para a nossa pequenez, é tão difícil cumprir o nosso dever; em cada ato de virtude, precisamos fazer tantos esforços, tantos sacrifícios, que muitas vezes nossa debilidade sucumbe e, mesmo sabendo que nos afastamos do caminho reto, deixamos o empreendimento iniciado sem levar a cabo o propósito que havíamos concebido, e parece-nos demasiadamente árido a obra que nos havíamos proposto realizar.
   Ao mesmo tempo em que encontramos dificuldades em nossos empreendimentos, principalmente em nossa vida espiritual, estamos também cercados de perigos. Em toda a parte encontramos perigos que nos expõem a cair, que nos impede de fazer bem; acaso não disse Jó que a vida humana é uma tentação, uma luta constante? Não nos diz o apóstolo são Pedro que o demônio, como um leão que ruge, está sempre em volta de nós, buscando o momento propício para devorar-nos? Não somente encontramos o perigo em nossos semelhantes e até mesmo no fundo do nosso próprio ser, mas as próprias potências infernais conjuram contra nós para impedir que caminhemos, de maneira reta e rápida, para a perfeição e para a felicidade.
   Para sustentar-nos nas dificuldades, para evitar os perigos, para fazer os esforços indispensáveis ao cumprimento à vontade de Deus e realizar o fim para o qual nosso Senhor nos pôs neste mundo, temos necessidade de uma singular firmeza de alma. Por isso se diz que são os esforçados que alcançam o céu, por isso há relativamente tão poucos santos, porque são muito poucos os que têm a fortaleza necessária para superar as dificuldades, para fugir dos perigos, para fazer os esforços e os sacrifícios que a perfeição a que Deus nos chamou exige.
   Para que possamos superar as dificuldades e fugir dos perigos, nosso Senhor deu-nos um conjunto de virtudes que se agrupam em torno da virtude cardeal da Fortaleza. São a paciência, a perseverança, a fidelidade, a magnanimidade etc., todo um grupo de virtudes que, como um exército em ordem de batalha, está em nós para fortificar-nos, para alentar-nos, para fazer-nos superar as dificuldades e evitar os perigos.
   Mas este grupo de virtudes sobrenaturais, embora eficacíssimas, ainda não são suficientes para que possamos superar todas as dificuldades e fugir de todos os perigos; porque as virtudes como dissemos nos capítulos anteriores, por mais sobrenaturais que sejam, têm nosso selo, têm o modo humano; e nosso pobre espírito, estreito e limitado, é muito débil.
   Por isso a Escritura diz que “os pensamentos dos homens são tímidos e as sua providências incertas” (Sb 4,4). Sim, em nossos atos pomos o nosso selo, nosso selo de debilidade e deficiência.
De maneira que, para alcançar a salvação de nossas almas, não basta à virtude da fortaleza com suas virtudes anexas; é necessário um Dom, um Dom do Espírito Santo que traz o mesmo nome que a virtude: o Dom de Fortaleza.
   Por este Dom o Espírito Santo nos move de tal forma que podemos superar todas as dificuldades, fugir de todos os perigos e ter em nossa alma esta confiança que fazia o apóstolo são Paulo exclamar: “Tudo posso naquele que me dá força” (Fl 4,13). Esta frase do Apóstolo exprime o que o Dom da Fortaleza produz nas almas.
   Vou tratar de explicar, em quanto me é possível, porque as virtudes não são suficientes para infundir em nossa alma a firmeza de que temos necessidade para realizar o grande empreendimento de nossa santificação e como é absolutamente necessário que outro dom do Espírito Santo, o Dom da Fortaleza, venha consumar a obra.
   As virtudes têm uma norma diferente dos Dons; a regra da virtude da fortaleza é a amplidão das forças humanas. A fortaleza nos alenta para acometer empreendimentos árduos, infunde-nos firmeza para superar as dificuldades; mas como tem esta norma, esta medida: nossas próprias forças, a virtude da fortaleza não pode possibilitar-nos algo superior às forças humanas.
   Toda virtude – dizem os teólogos – consiste no meio; qualquer desvio da nossa vontade, tanto para a direita como para esquerda, afasta-nos da virtude. A fortaleza, certamente, não permite timidez irracional, mas também não pode impelir-nos a empreender, com presunção e jactância, algo que seja superior as nossas forças. Na Escritura há este conselho prudentíssimo: “Não procureis o que é superior as vossas forças”. E a virtude da fortaleza não pode impelir-nos a nenhuma coisa que seja superior às forças humanas.
   Ora, não é superior às forças humanas a consumação de toda obra e o esforço por evitar todo perigo? Qual é o homem, por mais firme, forte e tenaz que seja, que possa consumar toda a obra que empreenda e que possa evitar todos os perigos que encontra em seu caminho? Isto é algo superior às nossas forças.
   É o empreendimento que todo cristão tem que levar a cabo, a santificação de sua alma, a consecução da felicidade eterna, é o maior empreendimento, o mais árduo que se possa imaginar. Poderá o homem, por suas forças – embora ajudado pelos auxílios devinos, mas por suas próprias forças – alcançar e consumar esta obra colossal e evitar todos os perigos que pode encontrar durante sua vida? É claro que não, e por isso tem necessidade de um auxílio superior à virtude, por isso tem necessidade do Dom da Fortaleza.
   O Dom da Fortaleza tem outra medida. Sabemos qual é? A medida do Dom Fortaleza não são as forças humanas, não são os esforços angelicais, é a força de Deus, sua força infinita, sua força onipotente; pelo Dom da Fortaleza, o Espírito Santo nos impele a tudo aquilo que a força de Deus pode alcançar.
   Porque na ordem sobrenatural e sob a ação do Espírito Santo, a pobre criatura se reveste da fortaleza de Deus: como que desaparece a nossa debilidade e passamos a participar da força divina.
   Não pensemos que exagera o apóstolo são Paulo na frase que citei atrás; ele o diz de maneira claríssima: “Tudo posso naquele que me dá força”. À primeira vista, esta frase parece jactanciosa e soberba: Tudo posso. O apóstolo não põe nenhuma limitação, e poder tudo é próprio de Deus: acaso ele não é o único que pode dizer: Posso tudo? Por que o apóstolo são Paulo se atreve a pronunciar estas palavras: “Tudo posso naquele que me dá força?”
   Ele quer dizer: tudo posso, porque conto com Deus, porque possuo a força, porque estou revestido de sua fortaleza divina; tudo posso porque sou confortado por Deus.
Essa é a norma do Dom da Fortaleza, a força infinita de Deus. E, desde que se possua esta força, pode-se vencer toda dificuldade; acaso a força infinita de Deus não vence todas as dificuldades? Os obstáculos não são, não se convertem em meios nas mãos onipotentes de Deus?
   E porque se possui essa força infinita, é possível superar todos os perigos; não há perigo, por grave que seja, que não possa ser superado pela força do Altíssimo.
   Pelo Dom da Fortaleza não só temos a firmeza necessária para superar todas as dificuldades e fugir de todos os perigos, mas o Espírito Santo infunde também em nossas almas uma confiança como a que exprime o apóstolo são Paulo na frase já citada; uma confiança, uma segurança que produz em nossas almas a paz, a paz no meio dos perigos, no meio da luta, no meio das dificuldades.
   Penso que não há espetáculo mais belo e mais importante do que aquele que os santos muitas vezes ofereceram na história, no meio de dificuldades sem número, tendo que combater com os poderosos da terra e com as potências do inferno, conservaram a sua paz e a sua alegria. É que estavam sob a direção Espírito Santo e agiam sob o influxo eficacíssimo e onipotente do Dom de Fortaleza.
Por esse dom consuma-se toda obra, supera-se toda dificuldade, evita-se todo o perigo e supera-se essa vacilação, esse temor, essa timidez que são próprias da natureza humana.
   Não nos revela a história que grandes conquistadores, soldados valorosos, ao começarem uma batalha, tremiam e vacilavam por mais que tivessem a experiência de sua prática e de suas forças? É que na pobre natureza humana sempre permanece a vacilação e o temor: somos tão frágeis, tão débeis! Mas quando estamos sob o império do Espírito Santo, quando estamos revestidos da força de Deus, quando o Dom de Fortaleza dirige nossos atos, acaba-se o temor e a vacilação: “Tudo posso naquele que me dá força”.

   Para que nos demos conta exata disso e de que os Dons não são uma lenda fantástica nem são algo especulativo, mas algo perfeitamente prático, quero assinalar alguns traços nas vidas dos santos. E apelo para o seu testemunho, em primeiro lugar porque os santos são os que viveram de maneira íntegra e perfeita a vida espiritual; e, em segundo lugar, porque nessa matéria são as únicas vidas que todos conhecemos. Quantas vezes há maravilhas de Deus numa alma desconhecida; mas são o segredo do Altíssimo.
   Pelo dom da Fortaleza os santos alcançaram esta perfeição incrível, gozar no sofrimento. Temos dificuldades em compreender como é possível que das próprias entranhas da dor brote a alegria; mas esta é a verdade.
   Recordemos a parábola da perfeita alegria de são Francisco de Assis. Recordemos o que dizia ao Irmão Leão, Cordeirinho de Deus, quando ia pelo caminho e se detinha para explicar em que consiste e em que não consiste a perfeita alegria.
   Não repetirei esta conhecidíssima parábola; recordarei unicamente a conclusão a que chegou o Serafim de Assis: “Irmão Leão, a perfeita alegria consiste em padecer por Cristo que tudo quis padecer por nós”.
   Se não fosse um santo quem disse tal coisa, julgaríamos que se trata de um paradoxo de algum literato para impressionar o ânimo dos que lessem as suas obras; mas não, Francisco é sincero, tem a sinceridade de uma criança, e ele nos diz que a maior alegria, a perfeita, a que chega ao coração, a que tem um selo celestial consiste em sofrer. Somente sob o império do Dom da Fortaleza se pode encontrar gosto na dor.
   Outro exemplo daquilo que o Dom da Fortaleza produz nas almas encontra-se naquele Santo ancião Inácio, Bispo de Antioquia, que foi levado a Roma para ser martirizado. Dirigiu aos romanos uma carta maravilhosa, cuja finalidade era suplicar-lhes, pelas entranhas de Cristo, que não impedissem o seu martírio. E dizia-lhes: “Se as feras não se lançarem sobre mim, como aconteceu com alguns mártires, eu as atiçarei para que me devorem. Perdoai-me filhinhos, mas eu sei o que me convém; porque sou o trigo de Cristo e é preciso que seja triturado pelos dentes das feras para converter-me em pão imaculado”.
   Essas palavras, essa atitude, não são palavras ou atitude de um sábio, não é a atitude de um homem, é a atitude de quem está sob o império do Espírito Santo, de quem recebe o influxo eficacíssimo do Dom da Fortaleza.
   E não só para estes atos extraordinários e heroicos é necessário esse dom; não; em outros santos encontramos o influxo do Dom da Fortaleza em atos que não são extraordinários como estes que acabo de citar; por exemplo, são Gregório VII, empreendendo uma luta gigantesca contra os inimigos da liberdade da Igreja.
   Não tinha uma fortaleza sobre-humana que não era virtude, mas o Dom, santa Teresa de Jesus, para reformar a Ordem do Carmelo, ao ter que lutar contra os bons e contra os maus e passar por dificuldades imensas, enquanto muitas vezes trazia na alma uma enorme desolação? Não teve necessidade do Dom da Fortaleza para realizar os seus empreendimentos?

   E quero deixar claro que até para a vida ordinária é necessário o Dom da Fortaleza, não somente porque todo o cristão pode encontrar-se, algumas vezes em situação difícil e heroica, em que tem necessidade do impulso do Espírito Santo para fazer algo de extraordinário, mas também para a nossa vida ordinária, para perseverar na virtude, para fazer todos os esforços que são necessários a fim de alcançar o céu, para poder vencer os perigos, para superar as dificuldades ordinárias da nossa vida e, sobretudo, para sentir em nossos corações essa paz e essa confiança de que temos falado, é absolutamente indispensável o Dom da Fortaleza.
   Graças a Deus o temos, o recebemos no dia do nosso batismo, e sempre que temos a graça em nossa alma, temos com a graça o Dom da Fortaleza, e possuímos o Espírito Santo em nosso coração, e podemos receber no momento que for necessário o influxo eficacíssimo do Paráclito.

   No Dom da Fortaleza existem graus; no primeiro grau podemos realizar tudo que é absolutamente necessário para a salvação da nossa alma, tudo o que Deus nos manda, ainda que às vezes possa ser extraordinário e heroico.
   No segundo grau, nosso espírito adquire uma firmeza superior, não só para que cumpramos o absolutamente necessário, o que é de preceito, mas também para realizar as coisas que são de conselho, segundo os deveres e o espírito de cada alma, no estado em que Deus a colocou.
   E no terceiro grau, o Dom da Fortaleza nos eleva acima de toda a criatura, faz-nos superar a nós mesmos, coloca-nos no próprio Seio de Deus, onde reina uma confiança sem limites e uma paz inalterável.

   Se conhecêssemos o Dom de Deus! Se soubéssemos o que é este mundo maravilhoso que trazemos na alma! Se nos déssemos conta dessa beleza incomparável e divina do mundo sobrenatural!
   No mundo exterior há maravilhas. Quem não se compraz aspirando aos perfumes da primavera numa campina florida? Quem não experimenta o encanto misterioso que os bosques umbrosos encerram? Quem não sente a grandeza incomparável do oceano quando ruge e suas ondas se elevam para o firmamento? Quem não experimenta uma paz deliciosa quando, em uma noite tranquila, contempla no firmamento as estrelas que cintilam misteriosas? Todo este mundo não é nada em comparação com mundo sobrenatural.
   E se do mundo que acabo de descrever passamos ao mundo da ciência e ao mundo da arte, a todas as maravilhas que o homem realizou, sobretudo na época moderna, volto a dizer a mesma palavra: tudo isso é nada em comparação com o nosso mundo interior, porque nele está Deus. No santuário interior encontram-se as graças e os Dons do Senhor, de modo que trazemos um mundo divino em nosso coração.
   Oh! Se o compreendêssemos, se aquilatássemos a importância que tem, se entrássemos neste mundo maravilhoso!
   Peçamos ao Espírito Santo para que na próxima solenidade de Pentecostes abra os olhos do nosso coração ´para contemplar as maravilhas que trazemos em nosso interior e que impulsione as nossas almas para que vivamos essa vida, essa vida que Jesus Cristo nos adquiriu com o seu sangue, essa vida que ele mantém constantemente em nossos corações.

   Oh Espírito Santo! Vinde, Luz das almas! Abri os nossos olhos para que possamos compreender as maravilhas que possuímos em nossos corações! Vinde, iluminai-nos, movei-nos, vivificai-nos, impulsionai-nos, para que esqueçamos este pobre mundo exterior tão deficiente e imperfeito, e vivamos nesse outro mundo interior onde habitais e onde nos dais, como soberano esplêndido, vossos dons magníficos, os de vossa onipotência infinita!


Do Livro “Os Dons do Espírito Santo” Autor: Luis M. Martinez, Arcebispo Primaz do Mexico. Apresentação de Pe. Haroldo J. Rahm.  S.J. Edições Paulinas: 1976.

domingo, 9 de junho de 2013

Espírito Santo - Dom de Temor de Deus

DOM  DE  TEMOR
(Temor de Deus)


No capítulo anterior esforcei-me por expor a noção dos Dons do Espírito Santo. Disse que eram receptores sobrenaturais que têm o maravilhoso privilégio de captar as moções do Espírito Santo e que imprime em nossos atos um modo divino, porque os submetem a uma regra altíssima.
O nome e o número destes dons encontram-se na clássica passagem do profeta Isaías: “Brotará um ramo da raiz de Jessé, uma flor nascerá desta raiz, e descansará nela o Espírito de Sabedoria e de Entendimento, o Espírito de Conselho e de Fortaleza, o Espirito de Ciência e de Piedade, e a encherá o Espírito de Temor do Senhor”. O que Isaías chama “espírito” é o que na técnica teológica se chamam “Dons”.
Isaías enumera sete: Sabedoria e Entendimento, Conselho e Fortaleza, Ciência e Piedade, e Temor de Deus.
Para que compreendamos o que é cada um destes Dons e como o Espírito Santo opera por meio deles em nossa alma e a pode mover segundo seu divino beneplácito vou servir-me de uma comparação. Imaginemos uma grande fábrica onde há múltiplas e maravilhosas máquinas, diversos departamentos, admiravelmente organizados, como convém a uma obra perfeita. O diretor daquela fábrica, evidentemente, quer estar em contato, a qualquer momento, com cada um dos departamentos e das oficinas; e para conseguir isso, faz uma instalação de telefones ou de aparelhos receptores de rádio nos pontos principais de sua grande fábrica, para que ele, de seu ponto de comando, possa comunicar-se com todos, dirigindo e movendo tudo.
Assim o Espírito Santo, que habita em nós quando possuímos a graça de Deus, que é o doce Hóspede da alma, como o chama a Igreja, e que dirige de maneira magistral nossa vida espiritual, quis estabelecer nas diferentes partes do complicadíssimo ser humano estas realidades misteriosas, estes receptores que são os Dons do Espírito, pelos quais ele se comunica conosco, e pode infundir em todas e em cada uma das nossas faculdades humanas.

Podemos contemplar, em grandes traços, o conjunto das nossas faculdades. Acima de todas, como uma centelha de Deus, está o entendimento. É a faculdade mais alta, a mais nobre que possuímos, a que nos torna semelhantes aos anjos, a que põe em nossas almas um traço da imagem de Deus.
Nesta faculdade altíssima, precisamente por sua nobreza e excelência, o Espírito Santo colocou quatro dons: Sabedoria, Entendimento, Ciência e Conselho, que correspondem maravilhosamente aos diferentes hábitos intelectuais que os filósofos dizem que temos em nosso entendimento.
Pelo Dom do Entendimento penetramos nas verdades divinas, e para julgar destas verdades temos três dons:
- o da Sabedoria que julga das coisas divinas;
- o da Ciência que julga das criaturas;
- o do conselho que regula e dispõe os nossos atos.
Na vontade, que é a faculdade que segue em categoria e nobreza a nossa inteligência, há um Dom, o dom da piedade, que tem por objeto regular e dispor nossas relações com os demais.
Para dominar a parte inferior do nosso ser, há dois dons; o de Fortaleza para tirar-nos o temor do perigo; e o Temor de Deus para moderar os ímpetos desordenados da nossa concupiscência.
E assim, desde o ápice do nosso espírito, que é a inteligência, até a porção inferior do nosso ser, o Espírito Santo tem os seus Dons para comunicar-se com este mundo que trazemos em nós, para poder inspirar e mover todos os nossos atos humanos.
À primeira vista, podemos surpreender-nos de que na vontade, que tem tão grande importância em nossa vida moral, não haja mais do que um Dom, e este com uma atividade muito limitada, porque o Dom de Piedade – como já disse – tem por finalidade dispor nossas relações com os demais; a razão dessa anomalia consiste em que, em nossa vontade, possuímos duas virtudes altíssimas: a Esperança e a Caridade; estas virtudes são superiores aos dons e podem, por conseguinte, ter ao mesmo tempo função de virtude e função de Dom.
No capítulo anterior, disse que as virtudes nos servem para a direção que a razão imprime à nossa vida, e que os Dons são preciosos instrumentos que o Espírito Santo utiliza para sua direção mais alta. É natural que os instrumentos da direção estejam em proporção com aquele que dirige; mas a Caridade e a  Esperança são virtudes tão altas, são instrumentos tão preciosos que ao mesmo tempo que nossa razão pode dispor delas – imprimindo-lhes, naturalmente, o seu modo humano –, o Espírito também as utiliza como preciosos instrumentos para realizar as suas maravilhas.
E assim, por exemplo, a Caridade, essa caridade que o Espírito Santo derrama em nossos corações, esse amor sobrenatural e divino que nos faz amar a Deus por si mesmo e nosso próximo por amor de Deus, a caridade pode ser – se me é permitida a expressão demasiadamente humana – manejada por nossa razão e produzir um amor sobrenatural mas imperfeito, e pode ser movida pelo Espírito Santo e então produzir um amor profundo e altíssimo.
Por este conjunto de Dons, o Espírito Santo possui por completo a nossa alma, e estes dons têm entre si relações estreitas. O profeta Isaías, na enumeração que acabo de fazer, coloca-os aos pares: Espírito de Sabedoria e Entendimento; Espírito de Conselho e de Fortaleza; Espírito de Ciência e de Piedade; Espírito de Temor de Deus.
Entre estes Dons que formam cada par, há uma união estreitíssima; o primeiro de cada par é o diretor do outro: a Sabedoria dirige o Entendimento; o Conselho dirige a Fortaleza, a Ciência dirige a Piedade, e o Temor de Deus é dirigido diretamente pela Sabedoria que é como diretora geral de todos os demais dons. 
Se considerarmos a importância deles, a excelência de cada um, poderemos enumerá-los assim: o mais perfeito de todos é a Sabedoria; depois vem o Entendimento, em seguida a Ciência, depois o Conselho, a seguir a Piedade e a Fortaleza, e o que é inferior a todos, o Dom do Temor de Deus.
Se pudéssemos dar-nos conta exata do que é este mundo interior que trazemos em nossa alma! Se pudéssemos compreender como o Espírito Santo habita verdadeiramente em nós e nos possui! Volto à minha comparação, que nem por ser prosaica deixa de ser exata: um diretor de uma fábrica que tem uma magnífica instalação em todos os departamentos dela e que pode comunicar-se, a qualquer momento, com todas as dependências daquela fábrica para poder dar suas ordens e dirigir tudo, pode-se dizer que em seu escritório central tem a fábrica inteira; assim o Espírito Santo, habitando no santuário interior da nossa alma e sendo o Doce Hóspede dela, tem, por meio dos seus Dons, a posse de todas as nossas faculdades.
Verdadeiramente, o Espírito Santo é a alma da nossa alma e a vida da nossa vida. É pena que frequentemente nos esqueçamos deste mundo que trazemos dentro de nós. É pena que fascinados pelas coisas da terra, muitas vezes percamos a noção das coisas divinas! A cada um de nós poder-se-ia dizer o que nosso Senhor disse à Samaritana junto ao poço de Jacó: “Se conhecesses o Dom de Deus!” Se soubéssemos o que trazemos dentro de nossa alma! Riquezas sobrenaturais, riquezas divinas que podemos maravilhosamente explorar.

Mas convém examinar, um por um, os Dons desta série magnífica que o Espírito Santo derrama em nossas almas. Começaremos pelo inferior de todos, o Dom de temor de Deus.
À primeira vista, parece estranho que haja um Dom de Temor; acaso todos os Dons não têm por raiz a Caridade? E não diz a Escritura que o amor perfeito exclui o temor? Como é possível que desta raiz profunda e divina da caridade brote o Temor de Deus?
Para compreender isso é necessária uma análise. Há diversas classes de temores; há temor de pena e temor de culpa; há também um temor mundano. Quantas vezes, pelo temor de um mal terreno, de um mal temporal, nos esquecemos dos santos preceitos de Deus e cometemos um pecado! Quantos homens existem que, por temor mundano, se afastam de Deus!
Há outro temor que nos afasta do pecado, que nos aproxima de Deus, mas que é demasiadamente imperfeito; os teólogos o chamam “temor servil”; é o temor do castigo. Não há dúvida de que, muitas vezes, o temor do castigo nos impede de cair no pecado, mas também é certo que o motivo é de ordem inferior, é mesquinho, não tem a nobreza própria do amor. O temor servil não é o dom de Temor de Deus de que estou tratando.
Há outro temor que se chama filial, e consiste na repugnância que a alma sente em afastasse de Deus, é um temor que brota das próprias entranhas do amor. É verdade que o amor perfeito exclui o temor, mas há um temor que o amor não exclui, há um temor que está, por assim dizer, na base do amor.
Quem quer, quem ama, sente um temor profundo de afastasse do amado ou causar-lhe desgosto; não se conceberia o amor sem este temor.
Poderia repetir aqui uma frase de santo Agostinho: “Dê-me alguém que me ame, e entenderá o que digo”.
Para aquele que ama, para aquele em quem o amor profundo se apoderou de todo o seu ser, há um temor que está acima de todos os temores, a separação do amado, e este temor dirigido pelo Espírito Santo é precisamente o que constitui o Dom do Temor.
O Espírito Santo nos une de tal maneira a ele que nos infunde um horror instintivo, profundo, eficacíssimo, de afastar-nos de Deus, que nos faz dizer: tudo, menos perder nossa união estreitíssima com o ser amado. É um temor filial, é um temor nobilíssimo, é um temor que brota das próprias entranhas do amor; esse temor filial, perfeito e amoroso, é o que constitui o Dom de Temor de Deus.
A Sagrada Escritura nos assegura, em muitas passagens, que o Temor de Deus é o princípio da sabedoria, e assim o é realmente, desde que esta expressão seja entendida devidamente. O Temor de Deus não é o princípio da sabedoria no sentido que do temor brote a essência dela, como dos princípios de uma ciência emanam suas conclusões; o Temor de Deus é princípio da sabedoria no sentido de que esse Dom produz o primeiro efeito na obra divina da sabedoria.
E, da mesma maneira, são princípios de sabedoria os diferentes temores.
O temor servil é princípio de sabedoria, mas não no sentido de que influi nela, mas no sentido de que prepara e dispõe a alma para que a ela possa vir à sabedoria. O temor servil é princípio de sabedoria como os fundamentos são o princípio do edifício; estando ocultos, não têm a beleza das linhas que irá ter o edifício, mas é preciso que o edifício repouse sobre eles. Assim o amor servil, afastando-nos do pecado, produz em nossa alma a pureza necessária para que nela possa penetrar o amor verdadeiro.
O temor filial e, num sentido mais perfeito, o princípio da sabedoria, porque, para que possamos possuir a sabedoria divina, temos necessidade de nos unirmos tão estreitamente a Deus que nada nos possa separar dele, e o Dom do Temor nos une assim a Deus. O Dom do Temor impede que algum dia venhamos a nos apartar do amado, e, neste sentido, o princípio da Sabedoria é o Temor de Deus.

Este Dom vem corresponder de maneira maravilhosa às diferentes virtudes; a humildade, porque a humildade nos coloca em nosso próprio lugar, nos faz conhecer nosso verdadeiro valor impede essas rebeliões contra Deus e essa presunção que nos faz julgar-nos superiores ao que somos. O Dom de Temor de Deus, unindo-nos com Deus, faz-nos sentir profundamente a nossa miséria.
Corresponde também ao grupo de virtudes da temperança, porque estas virtudes moderam a nossa concupiscência, os impulsos desordenados do nosso coração; mas o temor de Deus por um princípio altíssimo, por um princípio divino, também nos coloca na ordem, na moderação, na paz.
O Dom do Temor inspirou muitos traços primorosos da vida dos santos; recordemos alguns exemplos fornecidos pela vida dos santos. Acaso não estamos lembrados de que S. Luís Gonzaga chorou e se afligiu quando teve que confessar suas pequenas faltas que nós temos até dificuldade em pensar que fossem pecados? Por que aquelas lágrimas? Por que aquela dor? Porque aquilatava a magnitude daquelas faltas, que nos parecem pequeníssimas, sob o influxo do Dom de Temor, via naquelas faltas o mal, um vestígio da separação de Deus; eram sumamente leves, certamente, mas, será que para o temor há coisas leves? Quando se ama com paixão, o mais leve perigo de se afastasse do objeto amado não despedaça o coração?
Este mesmo Dom de Temor influía em santa Juliana de Falconeri que tremia ao ouvir o nome do pecado, que desmaiava quando ouvia relatar um crime. É algo superior, algo profundíssimo, algo muito mais perfeito do que nós, por nossas pobres faculdades podemos alcançar; é o efeito sobrenatural que o Espírito Santo produz em nossas almas para que olhem com horror o pecado, para que adiram intensamente a Deus.

Como é natural, nos Dons existem graus, como acontece também nas virtudes. Qualquer faculdade na ordem natural pode aperfeiçoar-se gradativamente e, à medida que seus atos se aperfeiçoam, tornam-se mais intensos, mais perfeitos. Não estão no mesmo grau a inteligência de um estudante que está apenas se aproximando dos sagrados umbrais da ciência, e a inteligência daquele que faz um estudo completo das ciências próprias de sua profissão e, sobretudo, a inteligência do sábio que passou a vida em estudos sérios e profundos. As faculdades naturais crescem com o exercício, vão se desenvolvendo cada vez mais e nelas podemos distinguir vários graus.
O mesmo acontece com a ordem sobrenatural; as virtudes têm seus graus e os Dons também os têm. O Dom de Temor de Deus, no primeiro grau, produz horror ao pecado e força para vencer as tentações.
Pelas virtudes nos afastamos do pecado, vencemos a tentação, mas com quantas lutas, com quantas deficiências! Sabemo-lo por triste experiência; nossos esforços espirituais nem sempre são gloriosos: Quantas vezes nos sentimos vencidos! Em muitas outras ocasiões embora no fim de contas acabamos sendo vencedores, tivemos deficiências, vacilamos, e somente depois de muitos esforços conseguimos a vitória!
Pelo Dom do Temor de Deus, a vitória é rápida, a vitória é perfeita. Quantas vezes sentimos isto no fundo das nossas almas! Não ouve ocasiões em que na presença de uma tentação ou de um perigo sentimos um impulso rápido e instintivo que nos afasta do pecado? É o Espírito Santo que nos move pelo Dom de Temor.
No segundo graus deste Dom, a alma não somente se afasta do pecado, mas também adere a Deus com profunda reverência. Não somente se reverencia a Deus até evitar toda classe de pecado, mas até evitar essas irreverências que, sem serem propriamente faltas, são sempre sinais de imperfeição.
Este respeito profundo que os santos tiveram por tudo o que é sagrado, pela Igreja, pelo Evangelho, pelo sacerdote, é feito do Temor de Deus. Todo o divino é reverenciado; a alma que está sob império do Dom de Temor desejaria não cometer a mínima falta em tudo o que se refere ao respeito e à veneração que é devida a Deus.
No terceiro grau deste Dom produz-se um efeito maravilhoso. Por isso dizem os teólogos que o Dom de Temor de Deus é o que produz a primeira das Bem-aventuranças: Bem-aventurados os pobres, porque deles é o Reino dos Céus. A bem-aventurança da pobreza e do desprendimento é fruto do Temor de Deus.
Quando aderimos de tal forma a Deus e nos afastamos de tudo o que nos poderia afastar dele a ponto de perderem para nós o fascínio das coisas exteriores, então a alma se sente livre, experimenta um desprendimento divino que é característico deste período da vida espiritual; e chega-se a este cume glorioso do qual Jesus Cristo disse: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus”.
O desprendimento de Francisco de Assis que tinha na conta de nada todas as coisas da terra, o desprendimento que Jesus Cristo aconselhou ao jovem do Evangelho quando lhe disse: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e vem e segue-me”, esse desprendimento é fruto do Dom do Temor de Deus.

   Não é verdade que estas considerações, à primeira vista elevadas, difíceis, e que poderiam ser julgadas inadequadas à nossa situação ordinária, abrem horizontes ao nosso Espírito?
Como é belo contemplar os caminhos que levam ao cume! Nós talvez estejamos bem próximos do vale, talvez tenhamos apenas chegado aos primeiros contrafortes da montanha; mas como se conforta o espírito, como se dilata o coração quando contemplamos os cumes gloriosos, quando sabemos que somo destinados a chegar a essas alturas, e como serve de acicate à nossa pequenez e à nossa debilidade saber que o Espírito Santo vive em nós e que tem em nosso coração preciosos instrumentos para impelir-nos e elevar-nos, para levar-nos às alturas!
   Através de cada um destes Dons devemos contemplar o Espírito Santo, o Diretor Supremo, o Motor inefável e divino das nossas almas. E é consolador e reconfortante pensar que esse Espírito Santo nunca está separado dos seus Dons, e com seus Dons, que são preciosos instrumentos, pode influir em todas as partes do nosso ser.
   Levantemos nossos olhos às alturas, levantemos nossos corações ao Céu, Corações ao alto! Como diz o sacerdote todos os dias na Santa Missa, levantemos nossos corações e penetremos no seio infinito de Deus. Contemplemos aquele amor inefável, imenso, perfeito, pessoal que enlaça num abraço de amor o Pai e o Filho; convidemo-lo, desejamo-lo, digamos-lhe que viva em nossas almas, que não nos abandone jamais, que encha nossos corações, e que por meio dos seus Dons, preciosos instrumentos da sua atividade influam em nós, nos mova e nos conduza através de todas as vicissitudes do desterro ao cume bem-aventurado da pátria.

Do Livro “Os Dons do Espírito Santo”, da autoria de Luís M. Martinez, Arcebispo Primaz do México, tradução do Pe. Haroldo J. Rahm, S.J. Edições Paulinas, 1976.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Dons do Espírito Santo - Noções Gerais


Dons do Espírito Santo
Noções Gerais


   Domo-nos conta com grande Júbilo das nossas almas, de que se aproxima o dia glorioso e santíssimo de Pentecostes em que se enchem de alegria a terra e de graças celestiais os corações.
   Como há vinte séculos, na próxima solenidade de Pentecostes o Espírito Santo descerá sobre nossas almas, para enchê-las com sua luz, aquecê-las com seu fogo e visita-las com sua unção.
   E assim como os Apóstolos se prepararam, há vinte séculos, para receber o dom de Deus no recolhimento, na oração e unidos com a Santíssima Virgem Maria, assim queremos também nos consagrar estes dias a uma preparação intensa das nossas almas, para que no dia santíssimo de Pentecostes o Espírito Santo as encha com sua luz e com seu amor.
   Cabe-me o dever de ajudar os fiéis nesta piedosa e santa preparação. Ora, para que nos preparemos para a recepção do Paráclito, é preciso que o desejemos, de todo coração, e o chamemos como o chama sempre a Igreja todas as vezes que o invocam: “Vinde, Espírito Santo! Vinde, Espírito Criador! Vinde, Pai dos pobres! Vinde, luz dos corações! Vinde, Consolador das nossas almas!”
Mas, para chama-lo é preciso deseja-lo, e para deseja-lo é necessário amá-lo, e para amá-lo é mister conhece-lo. E eu quero, com a graça de Deus, ajudar as almas a conhecerem melhor o Espírito Santo.
Mas, como conhecê-lo se, segundo a Escritura, habita numa luz inacessível? Todavia, como muito bem diz o Santo Padre: “Se esta luz é inacessível às nossas forças, é acessível aos dons que recebemos de Deus”. Com a luz da fé, com os olhos iluminados do nosso coração, podemos penetrar às sombras do mistério e contemplar, atônitos, as maravilhas de Deus.
Mas não me atreverei penetrar de improviso no santuário augusto de Deus, não pretenderei mostrar os arcanos da sua vida divina, não terei a audácia de declarar este amor infinito e substancial que na unidade inefável enlaça o Pai e o Filho; mas, seguindo a maneira de ser do nosso espírito, quero mostrar a obra do Espírito Santo, para que por ela nossas almas se elevem ao conhecimento, que podemos ter na terra, de Deus. Vou falar da obra do Espírito Santo nas almas.
Bem sabemos que, embora todas as obras exteriores sejam realizadas pelas três Pessoas Divinas, contudo, com fundamento na Escritura e na Tradição, os teólogos apropriam a cada uma das Pessoas da Trindade aquelas operações que, por sua natureza e suas qualidades, se assemelham aos caracteres próprios daquela Pessoa Divina. Desse modo, ao Pai atribui-se a criação; ao Filho a Redenção e ao Espírito Santo a santificação das almas.
Ah!, Se pudéssemos contemplar esta obra maravilhosa da santificação das almas que o Espírito Santo realiza em nós! Sinto-me tentado de dizer que esta obra, a santificação das almas, é a obra mestra do Espírito Santo na terra.
Na verdade, sei que a obra mestra do Espírito Santo é a que realizou em Jesus Cristo. Jesus foi concebido por obra do Espírito Santo; o Espírito o cumulou com a plenitude divina, guiou-o em todos os passos de sua vida mortal e, por ele, Jesus Cristo se ofereceu na cruz e se imolou no Calvário.
A obra mestra do Espírito Santo é Jesus; mas, a santificação das nossas almas não é a prolongação e o complemento da obra do Espírito Santo em Jesus Cristo?
O Apóstolo são Paulo nos fala do mistério de Cristo, e na concepção profundíssima do Apóstolo, o mistério de Cristo não é somente o mistério da Encarnação e da Redenção do gênero humano; para o grande Apóstolo, Cristo não é somente a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, unida hipostaticamente à natureza humana que o Espírito Santo formou no seio da Virgem Maria; mais que isso, o mistério de Cristo inclui a imensa multidão de almas que são os membros do Corpo Místico de Jesus.
O Cristo total inclui todos nós; santificar as almas é completar Jesus, é consumar o mistério de Cristo.
Por isso atrevo-me a afirmar que a obra santificadora do Espírito Santo é sua obra mestra, porque é o complemento da obra que ele realiza em Jesus Cristo.
Mas nesta mesma obra de santificação do Espírito Santo, quero considerar nestes dias a parte mais fina, a parte mais perfeito, aquela que o Espírito Santo realiza de maneira íntegra e, poderíamos dizer pessoal. Porque quero falar dos Dons do Espírito Santo; e tratar deles é tratar, volto a dizer, da parte mais fina e excelente da obra do Espírito Santo em nossa santificação.
Para que se compreenda melhor meu propósito, devo dizer que o Espírito Santo realiza em nós a obra da nossa santificação de duas maneiras: uma, ajudando-nos, impelindo-nos, dirigindo-nos; mas impele-nos e nos dirige de tal maneira que nós assumimos a direção de nossa própria obra.
Porventura não é glória nossa realizarmos nós mesmo os nossos próprios destinos? Acaso não nos deu Deus este dom terrível e glorioso da nossa liberdade ou os forjadores da nossa desgraça?
Mas há outra maneira de dirigir do Espírito Santo, há outra obra que se realiza em nós quando toma pessoalmente a direção dos nossos atos, quando já não somente nos ilumina com a sua luz e nos aquece com o seu fogo e nos indica com seus ensinamentos o caminho que devemos seguir, mas quando ele mesmo se digna mover nossas faculdades e impeli-las para que realizemos a sua obra divina.
Uma comparação nos ajudará a compreender estas duas maneiras de influir em nossa obra santificadora que o Espírito Santo tem.
Imaginemos um grande artista, um pintor genial que vai realizar sua obra mestra. Para isso utiliza seus discípulos mais adiantados; ele mesmo indica como devem preparar a tela, como devem combinar as cores e permite-lhes que façam a parte menos importante ou menos perfeita de sua obra. Mas quando chega a parte mais importante e difícil aonde seu gênio vai se revelar, onde a inspiração que traz na alma vai se cristalizar, então, o trabalho não cabe mais aos discípulos; o próprio mestre genial faz os traços finíssimos de sua obra maravilhosa.
Assim é o Espírito Santo: vai realizar em nossas almas uma obra divina; é a imagem de Jesus que vai traçar em nossos corações, uma imagem viva, a imagem que precisamos trazer para que possamos penetrar nas moradas eternas.
O Espírito Santo dirige esta obra genial, mas quer que nós o ajudemos nela; como discípulos seus, permite que esbocemos esta imagem divina, certamente sob sua direção, segundo as normas que nos indica. Mas há um momento em que o Espírito Santo já não quer que nós, por nossa própria conta, dirijamos a obra. Ele começa a dirigir de maneira pessoal e imediata, e com instrumentos delineia os traços geniais, os traços fidelíssimos desta imagem divina.
Estes instrumentos finíssimos que o Espírito Santo utiliza para realizar a sua obra pessoal e excelente são os Dons do Espírito Santo.
Nós também temos os nossos instrumentos: são as virtudes que nos são comunicadas juntamente com a graça; por meio delas, aos poucos, vamos destruindo em nosso homem velho todas as concupiscências e vamos traçando em nossos corações a imagem de Jesus, formando o homem novo, criado segundo a vontade de Deus, na justiça e na santidade da verdade.
Mas chega um momento em que as virtudes não são suficientes para realizar a obra divina, visto que nossa orientação não é suficiente para semelhante prodígio; então o Espírito Santo intervém e dirige, de maneira imediata, a obra celestial, e como instrumentos maravilhosos para realiza-la, utiliza o que os teólogos chamam “Os Dons do Espírito Santo”.
Quantas vezes ouvimos falar deles! A Santa Igreja, nos hinos ao Espírito Santo, faz frequentes alusões a esses dons: “Tu és septiforme em teus dons”, diz o hino de vésperas de Pentecostes. E na frequência da Missa da grande solenidade, a Santa Igreja pede ao Espírito Santo que nos dê o sagrado septenário: “Dá aos teus fiéis, que em ti confiam o SACRO SEPTENÁRIO”, que nos outorgue os seus dons divinos, que são os sete dons do Espírito Santo.
Para explica-los, vou servir-me de uma comparação atual. A ciência moderna descobriu e fabricou aparelhos prodigiosos, que nos fazem captar as ondas que vêm de todas as partes do mundo e nos fazem ouvir a enormes distâncias o que se diz e o que se canta em qualquer parte da terra; quem tem um aparelho receptor, pode captar as ondas misteriosas e pode ouvir o que se diz e o que se canta a enormes distâncias.
Os Dons do Espírito Santo são receptores divinos, receptores prodigiosos para captar as inspirações do Espírito divino. Quem não tem um aparelho de rádio não pode ouvir o que se canta e o que se diz em outra parte; quem não tem os Dons do Espírito Santo não pode captar as divinas inspirações.
Os Dons do Espírito Santo são estas realidades sobrenaturais que Deus quis pôr em nossa alma para que possamos receber as inspirações do Paráclito.
Mas minha comparação, como é natural, é incompleta; pelos aparelhos inventados pela ciência moderna somente se ouve; por estes divinos aparelhos, não somente recebemos a luz e os ensinamentos do Espírito Santo, mas também suas moções; realizamos, na ordem espiritual, atos mais excelentes, mais perfeitos, atos que são verdadeiramente divinos.
Os Dons do Espírito Santo não só nos fazem receber as divinas iluminações do Espírito Santo, mas também os seus impulsos, de tal sorte que sob o influxo do Espírito Santo nós nos movemos como o diz claramente a Escritura: “Todos os que são movidos por Deus, são filhos de Deus (Rm 8,14)”. É uma das prerrogativas maravilhosas que os filhos de Deus têm: serem movidos pelo Espírito Santo.
Quantas vezes nossos atos são realmente nossos, mas agimos movidos por uma força superior, por um instinto divino, por uma moção do Espírito Santo.
E dessas moções podemos tirar consequências preciosas, porque se o Espírito Santo age em nós e nossos atos são feitos sob seu influxo imediato, é natural que nossos atos tenham caracteres verdadeiramente divinos.  
Não é próprio de um artista pôr seu estilo, sua inspiração, e, por assim dizer, sua alma naquilo que realiza? O mesmo instrumento musical tocado por diferentes artistas produz em nós uma impressão diferente.
Existe algo de próprio, algo característico em cada artista; quando ele executa, põe ali seu selo; os conhecedores podem dizer perfeitamente quem está executando alguma grande composição musical. E de todas as artes pode-se dizer o mesmo: acaso o pintor não põe o seu selo nas obras de suas mãos? O escritor, o orador, o poeta não põem o seu selo no que dizem e no que escrevem?
Alguém disse com muito acerto: “O estilo é o homem”. Cada qual tem seu próprio estilo, e o estilo é seu selo, é o reflexo de sua própria personalidade. E o Espírito Santo, quando age em nós, põe seu selo, um selo divino, um selo inconfundível. (Ef 1,13.30)
Como são diferentes os atos que executamos por nossa própria direção, embora sejam sobrenaturais, e os atos que executamos quando o Espírito Santo intervém neles. Quando somos nós que agimos, colocamos nosso selo de imperfeição, selo de fragilidade; quando o Espírito Santo influi em nossos atos, põe seu selo divino de segurança, de perfeição, de elevação, e por isso, por meio dos Dons do Espírito Santo executamos atos que têm caracteres divinos.
Talvez possa ilustrar o que acabo de dizer com alguns exemplos. O homem prudente que, para a execução de seus atos, só dispõe de suas qualidades naturais e da virtude sobrenatural da prudência, acerta realmente, mas com muita lentidão, depois de várias tentativas.
A Escritura disse-nos em dois traços magistrais o que é a pobre prudência humana. Diz que os pensamentos do homem são incertos e suas disposições tímidas; a incerteza e a timidez são nosso selo; mesmo quando acertamos, há em nossos acertos não sei o quê de incerteza e de timidez.
Aquele que age sob o influxo do Dom do Conselho, que é a prudência sobrenatural, sabe, de maneira rápida, segura e firme, o que se deve fazer em cada caso.
Outro exemplo: quando nós, guiados pela luz da fé, nos elevamos ao conhecimento das coisas divinas, em nosso processo interior pomos o selo humano; temos necessidade de analisar, de comparar, de discorrer; acumulamos noções, as unimos, as harmonizamos; não são um exemplo vivo disso minhas próprias palavras e meu próprio discurso para explicar o que são os Dons do Espírito Santo? Lanço mão de diferentes exemplos, divino, apresento diferentes facetas, e logo procuro unificar tudo para que se possa formar um conceito exato do que estou explicando. Ali está o meu selo, selo de imperfeição, de multiplicidade, de laborioso raciocínio.
Os santos quando contemplam as coisas divinas, sob o influxo dos Dons do Espírito Santo, não têm mais do que um  olhar, uma intuição profunda, rica, que nos faz contemplar num momento e, por assim dizer, num só ponto luminoso o que nós, para vislumbrar, temos necessidade de muito tempo e de muitos esforços mentais.
Os atos que procedem dos Dons do Espírito Santo têm um selo divino, o selo do Espírito Santo, um modo inteiramente celestial.
E poderíamos ainda dizer que diferem também as normas nestes dons celestiais; As normas dos Dons são diferentes das normas das virtudes. Quando agimos sob o influxo das virtudes, certamente temos uma norma sobrenatural, porém imperfeita, é a norma do homem iluminado pela luz de Deus. Mas quando se age sob o influxo dos Dons do Espírito Santo, a norma é a própria norma de Deus participada ao homem.
Não sei se os meus pensamentos incertos e tímidos conseguem explicar as maravilhas dos Dons de Deus.

E não pensemos que estes Dons do Espírito Santo são próprios unicamente das almas que chegaram a certas alturas nos caminhos da perfeição; não creiamos que somente os santos possuem os Dons do Espírito Santo; todos nós os possuímos, contanto que tenhamos a graça de Deus em nossas almas para receber estes Dons. No dia do nosso batismo recebemos os Dons do Espírito Santo juntamente com as virtudes e a graça.
Assim como quando nascemos somos dotados por Deus de tudo o que necessitamos para a nossa vida humana, um organismo completo e uma alma dotada de todas as faculdades, - certamente, nem todas desenvolvidas desde o nosso nascimento, mas já trazemos como que em germe tudo aquilo de que vamos precisar em nossa vida -, da mesma forma na ordem espiritual: quando alguém é batizado recebe em toda a sua integridade este mundo sobrenatural que o cristão traz na alma, a graça que é uma participação da natureza de Deus, as virtudes teologais que o põem em contato imediato com o divino, às virtudes morais que servem para orientar e ordenar toda a vida, e os Dons do Espírito Santo, receptáculos misteriosos e divinos para captar as inspirações e as moções do Espírito Santo.
E, quando possuímos a graça, possuímos também os Dons; não são algo passageiro, são algo estável, algo que trazemos em nosso coração constantemente; a graça não pode existir sem os Dons e num coração não podem existir a graça e os Dons sem que esteja ali também o Espírito Santo, que é o diretor divino da nossa vida espiritual.
Os Dons do Espírito Santo não são necessários somente para as grandes obras dos santos; também em nossa vida cotidiana, em nossa vida ordinária,  muitas vezes agimos sob o influxo dos Dons do Espírito Santo.
São Tomás de Aquino, cuja autoridade é indiscutível na Igreja, ensina-nos que para alcançar a salvação de nossa alma são indispensáveis os Dons do Espírito Santo; sem eles não poderemos realizar a obra da nossa santificação.
E para fazer-nos compreender a necessidade dos Dons, mesmo na vida ordinária do cristão, santo Tomás de Aquino lança mão de uma comparação que me parece exatíssima: um grande médico pode, por si mesmo, curar um enfermo grave, pode atender um caso extraordinário, mas um praticante de medicina, mesmo que possa fazer muitas coisas para curar enfermos e aplicar-lhes muitos remédios e saber o que é necessário num caso ordinário, para atender um caso difícil tem necessidade de estar sob a direção de um médico perfeito que conheça com perfeição a ciência e que possa, por conseguinte, conhecer perfeitamente o enfermo e seu mal e os remédios que são indispensáveis para curá-lo.
Nós somos como os praticantes de medicina: podemos cuidar de nossa própria saúde nos casos ordinários; mas seria impossível que realizemos por completo a obra da nossa santificação se não estivermos sob o influxo do Espírito Santo, o único que conhece perfeitamente o que somos e o que devemos fazer e que conhece totalmente os caminhos pelos quais podemos chegar à perfeição a que Deus nos chama.
Por conseguinte, os Dons não são carismas extraordinários que os santos recebem; trata-se de algo que todos possuímos e que trazemos em nosso coração.
Penso que, às vezes, desconhecemos este mundo sobrenatural que trazemos em nossa alma; não nos damos conta das riquezas que Deus depositou em nossos corações; trazemos conosco um mundo mais perfeito, mais excelente, mais belo do que o mundo exterior, porque trazemos a graça que nos faz semelhantes a Deus, trazemos as virtudes teologais que nos põem em contato íntimo com a Divindade, as virtudes morais que ordenam e dispõem toda a nossa vida, e trazemos os Dons do Espírito Santo pelos quais estamos em comunicação com ele para receber as suas santas moções.
Claro que nem em todas as almas os dons se desenvolvem no mesmo grau e com a mesma perfeição; como também as virtudes não se desenvolvem no mesmo grau e com a mesma perfeição em todas as almas.
As virtudes, como os Dons, são preciosas sementes que têm necessidade de serem cultivadas; nosso trabalho, nosso esforço de cristãos consiste em ir cultivando com cuidado especial estes germes preciosos que Deus depositou em nossa alma.
E assim como as plantas têm sua estação, sendo que algumas brotam quando vem à primavera carregada de perfumes, enquanto outras vêm no cálido verão e ainda outras brotam no meio da opulência do outono, da mesma forma, cada um dos Dons do Espírito Santo tem, por assim dizer, a época propícia na vida espiritual, onde encontra seu pleno desenvolvimento. Mas sempre temos todos os Dons, e nosso dever é desenvolvê-los constantemente em nossa alma.

Como se desenvolvem em nós os Dons do Espírito Santo? Que podemos e devemos fazer para que estes instrumentos preciosos, finíssimos, divinos, que o Espírito Santo emprega para a nossa santificação, alcancem em nós seu desenvolvimento completo?
Três coisas: a primeira é desenvolver em nossos corações a caridade, porque a raiz de todos os Dons é a caridade. Porque amamos, por isso podemos receber as santas inspirações do Espírito Santo; mesmo no amor humano, não existe como que um vislumbre deste privilégio prodigioso que tem o amor divino de unir-nos com o Espírito Santo e de escutar as suas santas inspirações? Quando se ama, mesmo com o amor terreno, têm-se intuições para descobrir os pensamentos e os desejos da pessoa amada que não podem ser substituídas por nenhuma ciência.
Não vemos como as mães adivinham, por assim dizer, as necessidades e os desejos de seus filhos pequenos? Uma pessoa experimentada não pode entender perfeitamente o que quer o menino, mas uma mãe entende; não é a inteligência que descobre este mistério e sim o coração; o coração tem intuições que o espírito não compreende.
E se até o amor humano, tão imperfeito e deficiente, tem intuições misteriosas, se o que vê e escuta, se o que ama vislumbra e adivinha, tratando deste amor sobrenatural que o Espírito Santo derrama em nossos corações, que é a caridade, com maior razão terão lugar essas divinas intuições.
Na proporção em que a caridade aumenta, aumentam também e se desenvolvem os dons. Por isso, nos santos descobrimos os atos próprios dos Dons do Espírito Santo, porque chegaram a um alto grau de caridade. Quem quer que faça progredir sua caridade, aperfeiçoa os Dons do Espírito Santo. É o primeiro meio de desenvolver em nós estes instrumentos preciosos e divinos.

O segundo meio consiste em desenvolver em nós as virtudes; as virtudes estão à nossa disposição, são os instrumentos do nosso trabalho espiritual.
Por meio das virtudes infusas, que também recebemos com a graça de Deus, podemos ir aperfeiçoando, uma por uma, todas as nossas faculdades e dispondo tudo em nossa vida interior. E à medida que as virtudes crescem, prepara-se, por assim dizer, o terreno para que o Espírito Santo venha e, com um trabalho mais fino e perfeito, consuma nossa obra.
Para continuar a comparação que coloquei no começo, assim como o pintor genial coloca os traços de sua inspiração depois que seus discípulos mais adiantados já fizeram a preparação conveniente, assim como ele intervém depois que a tela está preparada, dispostas as cores e esboçado o quadro que trata de pintar, assim também, quando nós, de nossa parte, realizamos nossa obra por meio das virtudes, então o Espírito Santo intervém com os seus Dons e consuma a obra.

A terceira coisa que podemos fazer para que se desenvolvam em nós os Dons do Espírito Santo, consiste em sermos dóceis às suas inspirações.
Quando prestamos uma atenção amorosa e constante à voz misteriosa do Espírito de Deus, quando o nosso coração é dócil, então podemos escutar melhor a voz do Espírito, podemos receber com maior perfeição as suas santas inspirações.
E quanto melhor recebemos estas inspirações divinas, mais se irão aperfeiçoando em nós os receptores que são os Dons do Espírito Santo.
Recolhamos estas lições práticas que expus sobre a doutrina dos Dons. Estou certo de que todos possuímos os Dons do Espírito Santo, porque espero em Deus que todos temos em nosso coração a graça santificante.
Se possuímos estes Dons, desenvolvamo-los, aperfeiçoemo-los. Como é triste que, existindo no mundo tantas coisas belas que se dizem e se cantam não se use o aparelho receptor para perceber semelhantes maravilhas! Como é triste que, tendo em nossas almas estes preciosos instrumentos do Espírito Santo, por nosso pouco cuidado não ouçamos a sua voz deliciosa, as suas santas inspirações!
Aperfeiçoemos os Dons, sobretudo durante esta novena de Pentecostes. Para que o Espírito Santo encha as nossas almas, para que nos fale, para que nos inspire, para que nos mova, é preciso que aumente em nossos corações a caridade, que pratiquemos com maior esmero as virtudes cristãs, e que conservando o nosso espírito silencioso e atento e o nosso coração dócil às divinas inspirações, recebamos a música que vem da voz do Paráclito e sintamos no íntimo de nossa alma as suas santas inspirações e as suas divinas moções.

Do Livro: Os Dons do Espirito Santo.
Autor: 
Luís M. Martinez. Arcebispo Primaz do México.

Edições Paulinas – São Paulo – 1976.